Calma Flavio, A Constituição Não Veio No Kit Do Primeiro Turno

 

Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno e já fala como se tivesse recebido, junto com os votos, a faixa presidencial, as chaves do Congresso e uma caneta para reescrever a Constituição.


“O Brasil já me deu um Congresso muito mais à direita”, disse.


Deu a ele? Não.


Deputados e senadores receberam os próprios votos, os próprios mandatos e não vieram embrulhados para presente com um cartão: “Para Flávio”.


Mas o salto alto não parou aí. Flávio já fala em controlar as presidências da Câmara e do Senado, mudar a Constituição e “redemocratizar” o país. Tudo isso antes de ganhar a eleição.


E aqui começa a parte séria. A direita saiu fortíssima das urnas. São 303 deputados identificados com esse campo. Para aprovar uma PEC, são necessários 308. Cinco votos.


União Brasil e PP já aderiram. Outros partidos negociam.


A hipótese, portanto, deixou de ser bravata de palanque e ganhou musculatura parlamentar.


Só que existe uma pequena inconveniência chamada democracia constitucional. Ganhar eleição não transforma ninguém em proprietário do Estado. Maioria não é cheque em branco. E Constituição não existe para obedecer ao vencedor. Existe justamente para limitar o vencedor.


Por isso, antes de anunciar que vai “redemocratizar” o Brasil mudando a Constituição, Flávio deveria responder: QUAIS ARTIGOS? QUAIS DIREITOS? QUAIS PODERES QUAIS LIMITES?


Porque pedir autorização genérica para mudar as regras depois de chegar ao poder tem outro nome. Não é programa de governo. É cheque em branco.


E há um detalhe delicioso que o salto alto costuma esquecer: antes de redesenhar a República, convém ganhar o segundo turno.


Urna tem péssimo hábito de derrubar quem começa a comemorar antes da hora.


- Julio Benchimol Pinto

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