SEM DIREITOS E A REPÚBLICA COM SOBRENOME
Renata Lo Prete perguntou a Flávio Bolsonaro sobre um projeto armamentista que pretendia eliminar a marcação das munições, instrumento fundamental para rastrear disparos e desvios de armamentos.
Resposta: vai combater o crime organizado!
Renata insistiu. A pergunta continuava sem resposta. Flávio classificou a questão como um detalhe sem importância.
Extraordinário! Para combater o crime, primeiro se apagam as pistas. Depois se declara a facção terrorista e se promete que os bandidos passarão a vida na cadeia ou serão “neutralizados”.
A investigação criminal pode ser substituída por uma sessão de espiritismo balístico: a polícia pergunta à cápsula de onde veio o tiro, e ela responde do além.
Quando Renata perguntou sobre aliados políticos investigados por envolvimento com organizações criminosas no Rio, surgiu o constrangimento que nenhum discurso de valentia resolve.
Márcio Canella, apoiado por Flávio para o Senado, foi preso ontem pela Polícia Federal, sob suspeitas que incluem relações com milícias e o Comando Vermelho. A própria mãe de Flávio chegou a ser cotada como sua suplente.
Naturalmente, investigação não é condenação, mas o rigor prometido contra o crime organizado deveria começar sem exceções partidárias.
Na política externa, outra pérola.
Eduardo fez um “trabalho brilhante”, segundo Flávio. Mas não será chanceler. Curiosamente, Eduardo já anunciou que a escolha dos ministros passará pelo crivo do pai.
Afinal, quem governará? O presidente eleito ou o patriarca da família?
Eis o curioso projeto institucional apresentado na entrevista: munições sem identificação, criminosos classificados por decreto, suspeitos ameaçados de “neutralização” e ministros sujeitos à bênção paterna.
A bala perde a marca, o ministro ganha o sobrenome e a República corre o risco de virar patrimônio de família.
Renata fez jornalismo. Flávio fez malabarismo.
E as perguntas continuam de pé.
– Julio Benchimol Pinto

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