O celular de Daniel Vorcaro está se revelando uma espécie de raio X das entranhas do poder brasileiro. E cada nova radiografia parece mais indecente que a anterior.
Frederic Kachar, poderoso diretor de jornais, revistas e rádios do Grupo Globo, negociava patrocínios milionários com o banqueiro e prometia: “Vou pautar Vogue, Marie Claire e Ela”.
Três dias depois, as três publicações divulgaram a marca da então namorada de Vorcaro.
Mas havia também outro universo nessas conversas.
Mulheres tratadas como mercadorias, comentários grosseiros sobre Deborah Secco e Sabrina Sato, que estavam trabalhando no Baile da Vogue, e festas com estrangeiras apelidadas de “guerra na Ucrânia”.
Enquanto uma guerra verdadeira produzia mortos, refugiados e sofrimento, homens poderosos transformavam seu nome em piada de camarote.
E ainda havia convites para festas “sem celular” e “sem risco”.
A Globo demitiu Kachar e reconheceu a relação inadequada. É preciso reconhecer também que jornalistas do grupo resistiram às pressões de Vorcaro.
O problema, portanto, não é condenar uma redação inteira, mas compreender como o dinheiro tenta atravessar a fronteira entre publicidade, jornalismo e poder.
Quando um banqueiro consegue discutir a pauta, negociar o camarote e escolher seus convidados, a pergunta deixa de ser quem pagou a festa e passa a ser quem está pagando a conta da democracia.
– Julio Benchimol Pinto

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