Daniel Vorcaro tinha um privilégio extraordinário: podia ler e sugerir alterações nas notícias do Metrópoles antes dos próprios leitores.
E não era jornalista. Era o dono do Banco Master.
Quando pediu que retirassem a palavra “falência” de uma reportagem, Lilian Tahan, CEO do portal, respondeu: “Deixa comigo!”.
Quando solicitou a exclusão da Hapvida de outro texto, ouviu: “Claro”.
Quando sugeriu mudanças numa reportagem sobre Renato Gomes, diretor do Banco Central que examinava a compra do Master pelo BRB, recebeu: “Boa! Combinado!”.
Segundo o UOL, pelo menos 14 reportagens foram submetidas previamente ao banqueiro. Onze sofreram alterações após seus pedidos.
Tudo isso depois de um contrato publicitário de R$ 20 milhões entre o Master e o portal.
Lilian afirma que apenas checava informações com uma fonte e nega qualquer interferência da publicidade na cobertura.
Mas há uma diferença monumental entre ouvir uma fonte e permitir que ela influencie o conteúdo e o enquadramento de notícias sobre seus próprios interesses.
O jornalismo fiscaliza o poder. Quando o poder passa a revisar o jornalismo, quem fiscaliza o fiscal?
A democracia não morre apenas quando se proíbem notícias. Também adoece quando se permite que os interessados escolham o que o público vai ler.
Vorcaro tentou apagar uma palavra das reportagens: falência.
Ironicamente, as mensagens expuseram outra espécie de falência, muito mais inquietante: a da independência editorial.
A notícia pode ter patrocinador. Jamais deveria ter tutor.
– Julio Benchimol Pinto




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