Em 1886, trabalhadores de Chicago enfrentaram a repressão e a morte pelo direito a oito horas de trabalho. Não pediam luxo. Queriam uma parte da vida que não pertencesse ao patrão.
Robert Owen já sonhara com oito horas para trabalhar, oito para descansar e oito para viver. Marx denunciou a exploração do trabalho. Paul Lafargue proclamou a mais deliciosa das heresias: o Direito à Preguiça.
Cento e quarenta anos depois, a inteligência artificial realiza em segundos tarefas que antes consumiam horas. Mas ainda há mães e pais que só encontram os filhos acordados no dia de folga. Quando têm folga.
Afinal, se as máquinas economizam nosso tempo, quem está ficando com ele?
A aprovação do fim da escala 6x1, com redução gradual da jornada para 40 horas e salários preservados, é uma conquista civilizatória.
E tem história, rostos e protagonistas.
Rick Azevedo transformou indignação em movimento. Erika Hilton deu-lhe extraordinária força política. Reginaldo Lopes abriu caminho com sua PEC. Paulo Paim manteve viva essa bandeira durante décadas. Lula colocou o peso de seu governo a favor da conquista.
Mas a vitória pertence, sobretudo, a milhões de trabalhadores que se recusaram a confundir sobrevivência com existência.
E agora? A próxima fronteira é a semana de quatro dias de trabalho e três de descanso, com jornada efetivamente reduzida e sem perda salarial.
Não queremos apenas produzir mais. Queremos viver melhor.
Ter tempo para amar, estudar, brincar com os filhos, encontrar os amigos, contemplar o mundo. Até para não fazer absolutamente nada.
Porque o progresso que multiplica lucros, mas não devolve tempo às pessoas, é apenas exploração com tecnologia mais sofisticada.
A verdadeira riqueza de uma sociedade não está nas horas que consegue arrancar de seus trabalhadores, mas na vida que lhes permite desfrutar.
De que vale conquistar o futuro se continuamos sem tempo para vivê-lo?
Clara Ant e Julio Benchimol Pinto

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