Há quem acuse Lula de antissemitismo e, no mesmo fôlego, apresente os Bolsonaro como protetores dos judeus. É uma modalidade fascinante de amnésia seletiva: lembram-se de Hitler para condenar adversários e esquecem a extrema direita alemã quando ela aparece abraçada aos amigos.
Em julho de 2021, Jair Bolsonaro recebeu no Palácio do Planalto Beatrix von Storch, liderança da AfD, partido da extrema direita alemã cujos dirigentes relativizaram o nazismo e o Holocausto. A própria Confederação Israelita do Brasil condenou o encontro.
Não foi um acidente diplomático, mas uma escolha política.
E ninguém precisa responder pelos crimes dos antepassados, mas deve responder pelas companhias que escolhe no presente.
Lula errou gravemente ao comparar Gaza ao Holocausto. Criticá-lo é legítimo, mas transformar essa declaração em prova definitiva de antissemitismo, enquanto se absolvem as alianças do bolsonarismo com a extrema direita alemã, é hipocrisia fantasiada de virtude.
Defendo o direito de Israel existir, com segurança, mas Netanyahu não é Israel, Israel não é o povo judeu, e os Bolsonaro não receberam procuração para falar em nosso nome.
Aliás, judeus não são rebanho eleitoral. Pensam, discordam, criticam, votam - inclusive contra aqueles que pretendem sequestrar sua identidade.
O antissemitismo não é um interruptor que se acende diante de Lula e se apaga diante de Bolsonaro.
A estrela de Davi não é santinho eleitoral, Auschwitz não é palanque e os seis milhões de judeus assassinados não morreram para que seus algozes ideológicos encontrassem, oito décadas depois, uma conveniente lavanderia política.
A memória dos mortos exige respeito; a dos vivos, inteligência.
- Julio Benchimol Pinto





Comentários