Psicólogo Recém aprovado no mestrado da UFBA Morre na Bahia
Ele tinha 32 anos. Psicólogo. Recém-aprovado no mestrado da UFBA. Negro. Brilhante. Vivo.
Horas antes de morrer, Manoel Rocha Reis Neto escreveu sobre o que muitos preferem chamar de “mal-entendido”. Um homem branco bloqueou sua passagem no Camarote Ondina. Ele pediu licença. Pediu de novo. Foi ignorado. Só passou quando elevou o tom. E ali, no meio do Carnaval da Bahia - essa vitrine mundial da cultura negra - ele registrou o que doeu mais do que o empurrão: a constatação de que cordialidade não basta quando o corpo que pede passagem é preto.
Não houve briga física. Houve algo mais antigo. Um gesto mínimo de poder. Um corpo dizendo a outro: você espera.
Manoel não era um “qualquer”. Psicólogo formado pela UFRB. Residência multiprofissional pela Univasf. Experiência internacional em Portugal. Mestrando na UFBA. Reconhecido pelo compromisso com a saúde mental e com a luta antirracista. Ainda assim, escreveu poucas horas antes de morrer: dinheiro, títulos, sucesso não nos legitimam aos olhos das belas almas brancas.
A Polícia Civil registrou como suicídio. E é preciso tratar esse tema com responsabilidade, sem simplificações cruéis. Ninguém aqui tem o direito de transformar dor psíquica em slogan. Mas também ninguém pode fingir que o racismo cotidiano é detalhe irrelevante, “mimimi”, “perspectiva”.
Racismo não é só o insulto explícito. É a soma dos pequenos bloqueios. É o olhar que mede. É o corpo que não abre espaço. É o aviso silencioso de que, mesmo quando você paga, estuda, vence, ainda precisa provar que merece existir.
O Carnaval foi lindo. A cultura negra sustenta trio, camarote, fantasia, turismo, PIB. Mas a estrutura social continua distribuindo passagem com critérios invisíveis.
Manoel comemorou dias antes: “Um velho-novo caminho começa.” Terminou escrevendo sobre a impossibilidade de ter felicidade plena.
A morte dele não pode virar estatística nem disputa ideológica. É luto. É alerta. É espelho.
E, sobretudo, é a prova brutal de que o Brasil ainda pede licença demais a quem sempre ocupou a porta.
Júlio Benchimol Pinto



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