O Antissemitismo Não é Um "Problema dos Judeus", é Um Sintoma de Colapso Democratico


O artigo publicado hoje no Le Monde Diplomatique Brasil, assinado pelas minhas amigas Clara Ant, Patricia Tolmasquim, Clarisse Goldberg , Tânia Maria Baibich e outras integrantes do Judias e Judeus pela Democracia SP, vai direto ao ponto: sempre que o antissemitismo cresce, algo apodreceu na esfera pública.


Não é acaso, é método histórico.


Quando a democracia perde densidade, a confiança nas instituições evapora e a complexidade cansa, surge a explicação mágica, o inimigo absoluto e o “poder oculto” que explicaria tudo.


Foi assim na Europa do século XIX, foi assim nos anos 1930 e é assim agora.


O caso Epstein virou laboratório dessa degradação. Na extrema direita, recicla-se o libelo de sangue. Em setores da esquerda, ressurge a fantasia da conspiração global, com direito a Mossad onipresente e “lobby judaico” como chave universal do mundo - tese explicitamente formulada por Jessé Souza.


Direita e esquerda, espelhos invertidos: o judeu volta a ser a gramática explicativa do mal-estar.


E o que desaparece? Desaparece o debate estrutural sobre violência sexual, redes masculinas de poder, misoginia, elites predatórias. Desaparecem desigualdades, racismo, extrativismo, agronegócio, política concreta. Desaparece a responsabilidade.


Quando tudo vira conspiração, nada precisa ser explicado.


Esse é o ponto mais forte do artigo: o antissemitismo atravessa campos ideológicos porque ele não é apenas preconceito; ele é atalho cognitivo; simplifica o mundo, personaliza a crise, oferece um culpado pronto; é sedutor justamente quando a imaginação democrática empobrece.


Levar o antissemitismo a sério não é proteger uma comunidade; é defender o espaço público da intoxicação conspiratória.


Porque toda vez que o judeu vira explicação totalizante, a democracia já está em risco.


E a história, infelizmente, não é neutra com quem brinca com isso.

Credito : Escritor e Advogado Julio Benchimol Pinto

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