Famiíia Não É Palanque, Fé Não ę Munição e Politica Não é Altar
Uma jovem de 23 anos atravessa o Atlântico para visitar o pai no Texas, sai da Inglaterra com saudade, entra numa casa onde há uma arma carregada e uma discussão sobre Trump. Horas depois, está morta.
O Instagram resume: “Pai mata filha porque ela falou mal de Trump.” A realidade é mais feia e mais complexa: houve briga política, houve arma em casa, houve manejo temerário. No Texas, o júri não denunciou. No Reino Unido, a coroner falou em "unlawful killing" por negligência grosseira. Entre esses dois mundos jurídicos, uma família destruída.
O que me interessa aqui não é transformar Lucy em bandeira de guerra cultural, mas olhar para o que está por baixo: o ponto em que política deixa de ser divergência e vira identidade sagrada, quando a preferência eleitoral deixa de ser opinião e passa a ser fé, o debate vira blasfêmia e discordar é trair.
Arma carregada e fanatismo são uma combinação obscena, não porque todo conservador puxe gatilho, nem porque todo religioso seja radical, mas porque, quando a política se torna religião e a religião vira política, qualquer desacordo soa como ataque existencial. E, num ambiente armado, a distância entre grito e tragédia fica perigosamente curta.
A radicalização não começa no disparo; começa antes, começa quando o outro deixa de ser filha e passa a ser inimiga ideológica, quando o amor vira território ocupado pela tribo.
Lucy não morreu por um tweet; morreu num contexto em que a política já não era conversa, era batalha moral. E batalhas morais, quando entram numa sala com uma arma, raramente terminam em reconciliação.
Se você precisa destruir laços para defender seu líder, sua causa ou sua religião, há algo profundamente errado com o objeto da sua devoção ou com o modo como você a vive.
Família não é palanque, fé não é munição e política não é altar.
Quando tudo vira sagrado, qualquer palavra vira heresia. E heresias, em ambientes inflamados, podem custar vidas.
Credito: Escritor e advogado Júlio Benchimol Pinto



Comentários