Banco Master

 No inquérito do Banco Master, a Polícia Federal descreve algo que o Brasil finge tratar como folclore, mas que tem método: encontros sexuais organizados por Daniel Vorcaro reunindo empresários e agentes públicos. A PF foi clara: moral não é categoria penal - orgia, por si, não dá cadeia -; o que interessa é o nexo - se daquele ambiente saíram decisões administrativas suspeitas, favorecimentos, contratos enviesados, tráfico de influência.

E aí a trama ganha sotaque gospel.


Vorcaro não é apenas um banqueiro que “apareceu” num culto para foto. Sua ligação com a Igreja Batista da Lagoinha é orgânica, atravessa relações familiares e lideranças religiosas. Um pastor da Lagoinha é seu cunhado. Estamos falando de rede de confiança, capital simbólico, reputação compartilhada. Quando alguém transita entre púlpito e camarote com naturalidade, não é só fé; é também poder social acumulado.

Enquanto isso, o relatório circula no STF sob a relatoria de André Mendonça, que além de ministro é pastor. O Brasil consegue produzir esta cena sem corar: banqueiro ligado ao universo evangélico, festas descritas como parte de uma “engrenagem sofisticada”, agentes públicos misturados no mesmo salão, e um relator que prega aos domingos e julga às quartas. Se fosse ficção, diriam que o autor exagerou na metáfora religiosa.


O escândalo não é a carne, é o desenho institucional. Se dinheiro bancou ambientes de sedução política e desses ambientes emergiram vínculos capazes de afetar decisões públicas, então a suruba menor é a dos corpos; a maior é a das funções. Celulares recolhidos na porta, silêncio comprado com luxo, proximidade construída com champanhe importado e isolamento linguístico: não é libertinagem descontrolada; é logística.


Nada está definitivamente julgado. Tudo está sob investigação. Mas a fotografia é brutal: moralidade no altar, networking no escuro, tecnicalidades discutidas em plenário enquanto a opinião pública assiste ao eterno risco da nulidade salvadora.


No fim, não é sobre quem tirou a roupa; é sobre quem pode ter vestido a República com interesses privados e chamado isso de benção.

Credito: Escritor e Advogado Júlio Benchimol Pinto

Comentários

Postagens mais visitadas