Tem Dias em que o Brasil Parece Roteiro Descartado da Globo Por Excesso de Exagero
A procuradora diz que está sendo perseguida porque mandaram voltar ao trabalho presencial. Presencial. Aquele lugar antigo chamado repartição pública, onde as pessoas aparecem fisicamente. Tragédia grega.
O detalhe saboroso é o pano de fundo: marido condenado pelo STF por envolvimento em tentativa de golpe, mandato cassado, residência nos Estados Unidos, bloqueios judiciais, crise institucional… e o drama central é: pediram que eu vá trabalhar.
Há uma diferença elementar entre perseguição e ato administrativo. Perseguição é quando o Estado usa o poder para esmagar alguém fora da lei. Ato administrativo é quando o Estado aplica as regras que ele mesmo editou. Teletrabalho na PGE de Roraima existe desde 2016, com portarias, critérios, possibilidade de revogação motivada. Não é herança genética. Não é salvo-conduto vitalício.
Se houve desvio, que se mostre o ato e a motivação. Direito administrativo não se decide por stories.
O que transforma isso em comédia involuntária é o contraste: um país que enfrentou tentativa real de ruptura institucional, e o clímax narrativo vira o retorno ao escritório. O golpe fracassa, mas o drama é o ponto eletrônico.
Há algo profundamente simbólico aqui. Parte de quem flertou com a abolição do Estado de Direito agora invoca garantias administrativas com fervor quase iluminista. Descobriram súbito amor pelo devido processo legal. Que bonito. Tardio, mas bonito.
No Brasil de hoje, trabalhar presencialmente virou ato de opressão. Talvez o próximo capítulo seja Habeas Home Office.
Entre a vitimização performática e o escracho fácil, fico com a regra básica: cargo público não é extensão da vida privada. E regime de trabalho não é medalha honorífica.
No teatro da República, às vezes o drama é real. Outras vezes é só ensaio mal feito. E o público já aprendeu a distinguir.
Julio Benchimol Pinto



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