A Monarquia Britânica Ás Vezes É Mais Republicana do Que Certas Repúblicas de Familia

  

Prenderam o príncipe Andrew, irmão do rei. E o rei Charles III não entrou em modo clã. Não gritou complô, não apontou o dedo para a imprensa, não chamou a polícia de inimiga, não convocou torcida para transformar investigação em martírio. Fez o oposto do instinto tribal: soltou uma frase seca - a lei deve seguir seu curso - e recuou. Deixou a instituição respirar e a investigação andar.

Isso é “republicano” no sentido mais básico e mais raro: poder aceitando limite quando dói, regra valendo quando pega em casa, cargo não virando escudo para parente. A Coroa preserva a si mesma justamente porque não tenta salvar o irmão a qualquer custo.


Agora compare com a “república” dos Bolsonaro, onde tudo é família: mandato vira herança, Estado vira extensão do sobrenome, investigação vira perseguição, polícia vira inimiga quando encosta, Justiça vira “ditadura” quando não obedece, e a lei só serve quando é para bater no outro lado. Aí não há república, há clã com CNPJ.


O contraste é cruel: numa monarquia, o rei diz “deixem a lei trabalhar”; numa república de família, o chefe diz “deixem meu filho em paz”.


No fim, o título do regime importa menos do que a cultura do limite. E tem monarquia que entende isso melhor do que muita república que só sabe gritar “liberdade” enquanto tenta privatizar o Estado para a própria árvore genealógica.

Julio Benchimol Pinto

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