Vinicius Junior Mais Uma Vez Vitima de Racismo

 Vinícius Júnior fez um golaço em Lisboa. E, mais uma vez, teve de fazer algo muito maior: interromper o jogo para denunciar racismo.

O roteiro é conhecido. Um adversário cobre a boca e dispara a palavra que atravessa séculos. Parte da arquibancada imita macaco. O árbitro paralisa. A UEFA investiga. E, como num passe ensaiado, surge a inversão moral: “há duas versões”, “foi mal-entendido”, “ele provocou”, “ele exagera”. O técnico do Benfica tratou a denúncia como problema de comportamento do Vini. Traduzindo: o incômodo não é o insulto, é o fato de a vítima não aceitar o insulto.


Isso tem nome. Chama-se culpabilização da vítima. No futebol, veste terno e fala em tom professoral.


Vini não é “sensível”. Ele é reincidente - mas não no crime; na coragem. Foi assim em Valência, quando a Espanha inteira viu e parte fingiu não ver. Foi assim no episódio grotesco do boneco enforcado. Foi assim nas condenações judiciais que vieram depois, provando que não era histeria, era fato.


Toda vez que ele denuncia, tenta-se reescrever a cena: o gesto vira “interpretação”, o grito vira “clima de jogo”, a reação vira “teatro”. É o velho truque: desloca-se o foco do agressor para a reação do agredido. E pronto, o racismo vira “polêmica”.


Mas há algo novo no ar. Protocolo acionado. Investigação formal. Colegas que não se calam. Mbappé defendendo publicamente. A história começa a cobrar pedágio.


O que mais incomoda não é o gol, é a dignidade. O que mais assusta não é a denúncia, é a recusa em aceitar o papel de alvo silencioso.


Chamaram de macaco. Ele respondeu com futebol, denúncia e memória.


E, a cada vez que tentam criminalizar quem aponta o racismo, revelam o quanto ainda precisam dele funcionando em silêncio.


Não vai funcionar.

Escritor e Advogado Julio Benchimol Pinto

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