Que Crime Cometeu Narges Mohammadi?

 

Denunciar a pena de morte. Questionar o hijab obrigatório. Expor o confinamento solitário como tortura. Falar. Insistir. Não calar. No Irã, isso soma anos de prisão. Soma-se sentença a sentença até virar destino: 17 anos por existir com a espinha ereta.


O tribunal chama de “reunião e conluio”. O regime chama de “propaganda”. A história chama pelo nome certo: consciência. E consciência, em ditadura teocrática, é delito continuado.


Narges fez greve de fome. Seis dias sem comer para lembrar que o corpo ainda é dela, mesmo quando a cela tenta tomar tudo. Ganhou mais sete anos e meio como resposta. É assim que o poder fala quando não sabe argumentar: algema.


Quem vai chorar por Narges? As mesmas vozes que se erguem para denunciar abusos ou o silêncio seletivo vai vencer de novo? Vai haver nota indignada, post performático, lágrima pronta? Ou a causa é inconveniente demais, o carrasco errado, a vítima fora do roteiro?


Há prêmios que libertam. O Nobel não libertou Narges. Há aplausos que ecoam longe demais para atravessar grades. O que atravessa é a pergunta incômoda: quando uma mulher é presa por dizer a verdade, quem está realmente em julgamento?


Hoje, Narges está numa cela. Amanhã, a conta chega para quem escolheu não chorar.

Credito: Escritor e Advogado Julio Benchimol Pinto

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