Pronto. O Brasil Virou Tribunal Moral em 24 horas

 Carnaval. Sapucaí. Uma escola homenageia Lula. Uma ala põe conservadores em “latas de conserva” com o rótulo “família”.

Pronto. O Brasil virou tribunal moral em 24 horas.


O presidente da Frente Parlamentar Evangélica fala em “deboche criminoso contra a fé cristã”. Michelle fala em escárnio. Flávio em ataque ao “projeto de Deus”.


Respiremos.


Crime religioso, no Brasil, não é categoria emocional. O Código Penal exige escarnecer de culto, vilipendiar objeto de culto, impedir prática religiosa. Houve isso? Não. Houve sátira política. Houve caricatura de conservadorismo moral. Pode ser de mau gosto para alguns. Pode ser espirituoso para outros. Mas transformar alegoria em delito é salto retórico, não argumento jurídico.


Agora, no plano político, a história muda.

O campo evangélico é hoje um dos pilares eleitorais mais relevantes do país. Quando a palavra “família” vira caricatura, muitos se sentem atingidos. E política é disputa de símbolos. A reação não é jurídica, é estratégica. Mobiliza base. Reforça identidade. Alimenta a narrativa de que há um “establishment cultural” zombando dos conservadores.


Mas vamos combinar uma coisa adulta: laicidade não é blindagem contra sátira. Democracia não é zona de conforto moral. Se a cultura só puder exaltar o que ninguém critica, fechamos o teatro e abrimos uma igreja estatal.


Também não sejamos ingênuos: o governo sabia que haveria leitura política. Em ano eleitoral, nada na Avenida é inocente. Carnaval também comunica. A questão é outra: comunicar é diferente de delinquir.


No fundo, o que está em jogo não é fé, é hegemonia simbólica. Quem define o significado de “família”? Quem ocupa o imaginário popular? Quem dita o tom do debate público?


A Sapucaí virou palco de guerra cultural. E guerra cultural não se vence no Código Penal.


Quem acha que foi escárnio tem o direito de protestar. Quem acha que foi arte tem o direito de defender.


O que ninguém tem é o direito de transformar desconforto ideológico em crime imaginário.


Em 2026, até uma alegoria vira tese constitucional. E o Brasil continua sendo o único país onde um carro alegórico pode provocar mais indignação do que um orçamento secreto.

Credito: Escritor e advogado Júlio Benchimol Pinto

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