O Roteiro Está Pronto Para O Oscar
Carlos sai da Papuda e escreve como se tivesse deixado uma trincheira em Verdun. O pai é descrito como “preso político”, vítima de “injustiça histórica”, um homem que jamais desviou um centavo. A cena tem tudo: sofrimento físico, força mental, silêncio carregado de afeto, missão divina e o bordão final de campanha.
Só tem um detalhe inconveniente: estamos falando de alguém condenado dentro das regras do jogo democrático, com processo, defesa, recursos e decisões colegiadas. Ditadura é quando não há juiz independente. Aqui há juiz, há imprensa, há oposição, há bancada fiel no Congresso e há filho postando manifesto com centenas de milhares de curtidas.
A narrativa é épica; o contexto é jurídico.
Transformar decisão judicial em martírio bíblico pode mobilizar seguidores, mas não altera a natureza dos fatos. Chamar de “preso político” quem foi condenado por atentado à ordem democrática é uma inversão tão ousada que beira a performance artística.
O texto fala de crises de soluço e vômito; de mente forte, corpo que paga o preço, missão que continua - tudo muito dramático, muito calculado, muito eleitoral.
Enquanto isso, o país real discute inflação, emprego, segurança, orçamento. A República não gira em torno do estado emocional de um sobrenome.
O bolsonarismo adora acusar os outros de vitimização, mas ninguém produz mais épica de sofrimento do que eles próprios. A cada decisão judicial, nasce um novo capítulo do Evangelho segundo a Papuda.
Brasil acima de tudo? Ótimo. Então acima também de qualquer família, inclusive essa.
Júlio Benchimol Pinto



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