Dois Meninos Mortos. E Em menos de Uma Hora Já Havia Gente Perguntando se a Mãe tráia

 

É sempre assim. O homem aperta o gatilho, mas a sociedade corre para vasculhar o celular da mulher. Quer saber se havia separação, se existia decisão judicial sobre guarda, se ela “provocou”. Como se conflito conjugal fosse circunstância atenuante para executar crianças.


Há algo profundamente doente nessa reação automática. Quando um homem não suporta o fim de um relacionamento e transforma os próprios filhos em instrumento de vingança, o problema não está na suposta traição. Está numa cultura que ensina que perder a mulher é perder status, controle, honra. E que filhos são extensão do seu poder.


O Direito é cristalino: disputa de guarda se resolve no fórum, separação se resolve em cartório ou sentença. Ciúme não gera salvo-conduto penal. Nada, absolutamente nada, autoriza converter frustração afetiva em massacre doméstico.


Mesmo assim, parte da opinião pública prefere julgar a sobrevivente. É a velha engrenagem: ele vira homem “abalado”; ela vira suspeita moral. A misoginia opera sem precisar se anunciar. Trabalha nos comentários, nos sussurros, nos “mas também…”.


Dois meninos morreram. E há quem esteja mais preocupado em reconstruir a biografia íntima da mãe do que em encarar o machismo estrutural que transforma ruptura amorosa em guerra.

Autor  e advogado Júlio Benchimol Pinto


Se a primeira reação diante de um crime brutal é investigar o comportamento da mulher, isso diz muito menos sobre ela do que sobre nós.


E talvez seja exatamente isso que tanta gente não quer enxergar.

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