A Discussão Sobre Lula e Israel Ficou Refém de Dois Exageross
A discussão sobre Lula e Israel ficou refém de dois exageros: de um lado, a canonização acrítica; de outro, o carimbo fácil de antissemitismo. Nem uma coisa, nem outra.
Sim, há frustração legítima com falas recentes sobre Gaza, com a retórica inflamada e com a sensação de seletividade moral quando o assunto são regimes autoritários “aliados”. Isso não se varre para baixo do tapete. Quem tem amigos, família, memória e pele no jogo não engole slogan.
Mas há também um dado que não pode ser apagado por birra retrospectiva: Lula não construiu sua trajetória como alguém hostil aos judeus nem como alguém que trate Israel como um corpo estranho no mundo. Em 2010, foi o primeiro presidente brasileiro a fazer visita oficial a Israel. Esteve no Yad Vashem. Discursou no Knesset. Defendeu dois Estados e falou, com todas as letras, em segurança para Israel e dignidade para os palestinos. Isso é registro histórico, não opinião.
E é aqui que entra Clara Ant. Ela participou desse período de construção de pontes entre os governos brasileiro e israelense. Ponte de verdade: diálogo, presença, diplomacia, trabalho miúdo, o tipo de serviço público que não rende aplauso fácil, mas que, quando some, todo mundo percebe o vazio. Dá para discordar de posições políticas atuais sem transformar quem construiu diálogo em vilã de fantasia.
O ponto central, para não enlouquecer nem mentir, é separar três planos que vivem misturados nas redes: crítica a Netanyahu e à extrema-direita israelense; crítica a decisões militares concretas; hostilidade a judeus enquanto povo. Os dois primeiros pertencem à política e devem ser enfrentados com firmeza. O terceiro é preconceito. Quando tudo vira a mesma coisa, o debate apodrece e o antissemitismo real ganha passe livre.
Eu posso - e vou - criticar Netanyahu e a extrema-direita. Posso - e vou - cobrar coerência do governo brasileiro quando a régua muda conforme o aliado. Agora, dizer que Lula é antissemita é outra acusação, de outra natureza, e não fecha com o arquivo.
Credito: Escritor e Advogado Julio Benchimol Pinto



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