Então Vamos Lá

 


Filipe Martins não caiu do céu, não é turista acidental do autoritarismo e não é vítima de mal-entendido tecnológico.

É o mesmo sujeito que entrou no Planalto pela porta da guerra cultural, fez carreira como ideólogo olavista, tratou diplomacia como perfumaria globalista e achou elegante transformar política externa em cruzada civilizacional de WhatsApp.


É também o mesmo que, sentado no Senado, resolveu brincar de código secreto e fez um gesto amplamente usado por supremacistas brancos no mundo inteiro. A velha estratégia: sinaliza para os seus, nega para o público, chama todo mundo de paranoico. Dog whistle clássico. Manual básico.


Avança o tempo. Condenado por participação na trama golpista. Domiciliar. Tornozeleira. Proibição expressa de usar redes sociais. Regra simples, dessas que até quem acredita em terraplanismo entende.


E aí o que acontece? Surge um “acesso” no LinkedIn. Não um manifesto, não um textão. Um clique. Um rastro. Um fantasma digital. O bastante para acionar o STF. A defesa diz que não foi ele. Que foi algoritmo. Que foi força mística da tecnologia. Que foi qualquer coisa, menos o óbvio.


O problema não é o LinkedIn. Nunca foi.


O problema é o padrão. É o sujeito que vive de linguagem cifrada, provocação institucional e teste de limite reclamar quando o sistema lê o sinal e responde. Quem passa a vida dizendo “vocês não têm prova” não pode fingir espanto quando a Justiça diz “então senta e explica melhor”.


No fim das contas, a prisão preventiva não nasce de um clique. Nasce de uma trajetória inteira baseada na ideia de que instituições são fracas, regras são decorativas e inteligência se mede pela capacidade de driblar o óbvio.


Deu errado.


Não porque o STF virou ditadura, não porque o LinkedIn virou arma letal, mas porque brincar de radical em ambiente institucional costuma terminar do mesmo jeito: sem palco, sem código secreto e com a porta da cela fechando bem devagar, para todo mundo ver.

Escritor e advogado Julio Benchimol Pinto

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