O Brasil Precisa de Justiça, Não de Purificação

 Toda vez que alguém fala em “faxina” na política, eu levo a mão ao bolso para conferir se a Constituição ainda está lá.

A história brasileira conhece bem esse vocabulário. Em 1964, a ditadura militar também não se apresentou como ditadura. Apresentou-se como limpeza. Era preciso “sanear” o país, “varrer” a corrupção, “salvar” a moralidade pública, “proteger” a nação dos inimigos internos.


O resultado nós conhecemos: Congresso mutilado, mandatos cassados, censura, perseguição política, tribunais pressionados, cidadãos transformados em suspeitos e corrupção escondida atrás da farda, do medo e do silêncio.


A sociologia já ensinou isto há muito tempo: quando a política vira caso de higiene, o adversário deixa de ser adversário e passa a ser sujeira. E sujeira, na cabeça autoritária, não se debate, remove-se.


A democracia liberal nasceu justamente para impedir esse delírio purificador. Político suspeito deve ser investigado. Se houver prova, processado. Se condenado, punido. Com contraditório, ampla defesa, juiz competente, processo regular e responsabilidade individual.


Isso não é frescura de jurista; é a diferença entre República e linchamento.


Corrupção não se combate com fossa, expurgo ou fantasia de “revolução civil organizada”. Combate-se com instituição funcionando, imprensa livre, investigação séria, Ministério Público independente, Judiciário controlado pela Constituição e eleitor que não terceiriza sua raiva para aventureiro de plantão.


O Brasil precisa de justiça, não de purificação.


Porque, quando a linguagem da limpeza entra na política, quase sempre quem acaba varrida primeiro é a democracia.

  Julio Benchimol Pinto

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