Pesquisa Boa Não Serve Para Adivinhar o Futuro, Mas Mostra Onde o Chão Ainda Está Mais Fofo
A Meio/Ideia de abril mostra Lula na frente no primeiro turno, com 32,6% na espontânea e 40,4% na estimulada. Flávio Bolsonaro aparece em segundo, com 19,4% e 37%. No segundo turno entre os dois, há empate técnico: 45,8% a 45,5%. Até aí, o óbvio ululante.
O dado realmente importante é outro: 51,4% dos brasileiros dizem que ainda podem mudar de candidato até outubro. Em janeiro, eram 35,5%. Ou seja: a eleição está menos decidida hoje do que estava no começo do ano. Isso, por si só, já deveria interditar boa parte das fanfarronices analíticas que andam por aí.
E há uma assimetria gritante na solidez dos apoios. Entre os eleitores de Lula, só 26,6% admitem mudar de voto. Entre os de Flávio, 60,4%. Entre os de Caiado, 69,4%. Traduzindo: Lula tem um eleitorado mais consolidado; a direita tem força, mas ainda não tem unidade nem fidelidade comparáveis. Tem muito voto de direita circulando sem ter estacionado em ninguém. 
Há mais. Jair Bolsonaro ainda aparece com 6% na espontânea, mesmo fora do jogo. Isso mostra que parte do eleitorado bolsonarista continua emocionalmente presa ao original e não transferiu integralmente a procuração ao herdeiro. Flávio cresce, mas ainda disputa também a sombra do pai. Herança política, às vezes, vem com espólio e assombração. 
No fundo, o que está organizando essa eleição não é discurso de seminário sobre PIB, mas supermercado, dívida, prestação, aperto. A própria pesquisa mostra 70,4% dizendo que o custo de vida aumentou no último ano, 40% afirmando estar mais endividados e 74,7% tratando esses temas como importantes ou muito importantes para decidir o voto. Eleição se decide menos no PowerPoint do ministro e mais na mesa da cozinha. 
Então o quadro, hoje, é este: Lula lidera, mas não sobra; Flávio ameaça, mas não consolida; a direita existe, mas segue fragmentada; e metade do eleitorado ainda está com a mão na maçaneta. Quem está cantando vitória em abril talvez esteja apenas confundindo fotografia com certidão de óbito do adversário.
Julio Benchimol Pinto



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