Tem Dia Em Que A Politica Brasileira Não Precisa de Oposição; Ela Mesma Desmonta

 

O Senado aprova com folga o “PL da misoginia”. E lá está Flávio Bolsonaro, dedo no botão, voto “sim”, alinhado com o projeto.


Horas depois, surge o fenômeno raro da física política: o voto que se arrepende sozinho. Flávio aparece dizendo que caiu numa “armadilha”.


Armadilha? O sujeito é senador da República, não cliente de bingo em tarde chuvosa. Não foi surpreendido por uma cartela premiada. Votou. Sabia o que estava votando. Ou deveria saber.


A tese é deliciosa: aprovam a lei… e depois dizem que foram enganados pela própria aprovação.


Enquanto isso, o coro bolsonarista entra em cena. Nikolas Ferreira grita que é “aberração”. Bia Kicis vê uma “armadilha da esquerda”. Júlia Zanatta denuncia “censura”.


É um espetáculo curioso: o mesmo grupo político que passou anos fazendo carreira em cima de ofensa, grosseria e misoginia performática agora finge choque moral com a possibilidade de punição.


Subitamente, descobriram o valor da liberdade de expressão - aquela mesma que, quando é dos outros, costuma ser “mimimi”, “lacração” ou “crime”.


Mas o melhor não é isso. O melhor é a coreografia: primeiro vota, depois reclama, em seguida diz que foi enganado e por fim promete lutar contra aquilo que acabou de aprovar


É quase um gênero novo de atuação parlamentar: o legislador arrependido em tempo real.


E as parlamentares bolsonaristas, indignadas, berrando contra o projeto… aprovado com votos do próprio campo político que elas defendem. Uma cena que mistura teatro, desinformação e um leve desprezo pelo básico: coerência.


No fim, sobra um retrato honesto do que está acontecendo: não é debate jurídico nem disputa ideológica séria; é improviso, oportunismo e um nível de amadorismo que faria corar vereador de cidade pequena.


E a tal “armadilha”? Não estava no texto do projeto; estava no espelho.

     Julio Benchimol Pinto

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