De Longe, a Terra Perde o Barulho

 

Não se ouvem as palavras de ordem, os discursos inflados, os delírios patrióticos, as certezas homicidas, as pequenas vaidades com que a nossa espécie se fantasia de grandeza. Não se veem fronteiras, muros, as linhas imaginárias pelas quais matamos e morremos com espantosa convicção.


Vê-se isto: uma esfera azul suspensa no escuro, tã bela que dói, tão frágil que envergonha.


Toda a nossa fúria está aí dentro, toda a nossa ternura também, a infância de cada um, os mortos que amamos, as cidades incendiadas, as mães que esperam, os que rezam, os que duvidam, os que fogem, os que ainda têm a coragem de acreditar que o ser humano pode ser melhor do que tem sido.


Vista do espaço, a Terra não parece um império; parece um milagre em risco.


E talvez seja esta a imagem mais humilhante e mais bonita que a humanidade já produziu de si mesma: a descoberta de que a nossa casa não é imensa, não é invulnerável, não é eterna; é só esta, linda, solitária, finíssima, cercada de abismo por todos os lados.


Passamos a vida inteira brigando por quartos, quintais, bandeiras e deuses, como se fôssemos proprietários do infinito. Mas o infinito não é nosso. O que é nosso, e olhe lá, é esse pequeno clarão azul no meio da noite. Todo o resto é arrogância de primata com tecnologia.


Talvez falte menos inteligência ao mundo do que perspectiva.

   Julio Benchimol Pinto

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