Flavio Bolsonaro já Começou a Peregrinação Eleitoral Pelos púlpitos

 

A cena é eloquente: sobe ao altar, ajoelha, baixa a cabeça, recebe oração e deixa no ar a candidatura. Tudo muito piedoso, muito solene, muito comovente - até a parte em que se percebe que aquilo não é culto; é pré-campanha com fundo gospel.


Não há nada de espontâneo aí. Há cálculo. Os evangélicos já são um dos maiores contingentes eleitorais do país, e a direita sabe disso muito bem. Flávio sabe. Caiado sabe. Michelle sabe. Tarcísio sabe. Está todo mundo farejando o mesmo curral, com a delicadeza de uma boiada em loja de cristais.


O senador não foi apenas orar. Foi disputar mercado. Foi sinalizar à máquina religiosa que está disponível para ser ungido politicamente. Foi dizer aos pastores influentes, em linguagem de bastidor: abram as portas, convoquem os fiéis, acionem a capilaridade. Porque, em 2026, aleluia também contará voto.


O mais curioso é o teatro da devoção. A família que transformou a grosseria em método, a mentira em rotina e a fé em palanque agora reaparece de joelhos, com cara de contrição, como se o problema do Brasil fosse falta de oração e não excesso de cinismo. É comovente ver essa súbita intimidade com o sagrado sempre que a urna se aproxima.


Mas há um detalhe delicioso nessa novela: Flávio não reina sozinho nesse pedaço do mapa. Caiado já entrou em campo. Michelle paira como sombra forte nesse eleitorado. Tarcísio continua rondando. A disputa não é apenas contra Lula. É também dentro da própria direita, onde a unção é concorrida e a santidade dura até a próxima pesquisa.


No fundo, o gesto é menos religioso que empresarial. O púlpito vira palanque, o pastor vira articulador, a bênção vira ativo eleitoral e Deus, coitado, é novamente intimado a participar da campanha.


No bolsonarismo, até o amém tem marqueteiro.

     Julio Benchimol Pinto

Comentários

Postagens mais visitadas