Aldo Rebelo é o Padre Kelmon de 2026
Em 2022, Padre Kelmon entrou em cena para cumprir uma função muito clara: não vencer, mas servir. Servir de linha auxiliar, de sparring místico, de escada agressiva para o bolsonarismo nos debates. Isso foi descrito assim, sem grande mistério, pela cobertura da época.
Agora surge Aldo Rebelo, embalado como se fosse uma reserva moral da República, quando na prática vai se ajeitando no mesmo ecossistema político da direita de 2026, atacando STF, cortejando o eleitorado bolsonarista e posando de alternativa elevada à polarização. Elevada uma ova; é a velha gambiarra eleitoral com dicção mais caprichada.
A cereja do bolo grotesco é a notícia de articulação com Fabio Wajngarten, ex-ministro de Bolsonaro. E a justificativa atribuída a essa costura é tão singela quanto um cambalacho à luz do dia: multiplicar candidaturas de direita para facilitar a derrota do PT no segundo turno. Quando o enredo já vem com subtítulo, o crítico pode descansar.
Foi nesse contexto que Bernardo Mello Franco puxou a comparação com Padre Kelmon. Kelmon era o boneco de posto Ipiranga do bolsonarismo de debate. Aldo oferece algo mais sofisticado e, por isso mesmo, mais útil: a linha auxiliar para público que tem vergonha de parecer ridículo, mas nenhuma vergonha de fazer o ridículo por outros meios.
A diferença entre os dois é só estética. Kelmon parecia uma paródia pronta. Aldo quer parecer densidade histórica, gravidade institucional, grandeza nacional. Só que, no fim, a função cênica pode ser a mesma: embaralhar, atacar, deslocar o debate e fornecer apoio lateral a um campo político maior, sem precisar carregar nas costas o peso de ser o nome principal.
Padre Kelmon era a palhaçada em estado bruto. Aldo Rebelo é a palhaçada que frequentou biblioteca, botou blazer e pediu para ser chamada de estadismo. O papel continua pequeno; só ficou mais bem-falante.
Julio Benchimol Pinto



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