Ramagem Foi Preso Nos Estados Unidos Pelo ICE

 Ramagem foi preso nos Estados Unidos pelo ICE. Há uma justiça poética quase pornográfica nisso: um personagem da engrenagem golpista brasileira, ex-chefe da Abin, vendedor de ordem, disciplina, patriotismo e quinquilharias de quartel, acaba capturado pela máquina estatal de outro país enquanto tentava escapar da Justiça do seu.



A sequência fala por si. Houve condenação no caso da trama golpista. Depois, a saída do Brasil. Em dezembro, Moraes determinou a formalização do pedido de extradição. No fim do mesmo mês, o governo brasileiro entregou o pedido às autoridades americanas. Agora veio a prisão. Não foi acidente, mas consequência - palavra humilhante para golpista.


A histeria bolsonarista já deve estar em produção industrial. Vem aí o velho teatro: patriotas de Miami, exilados de condomínio, mártires de classe executiva, perseguidos políticos com vocação para duty free. Para os outros, lei, cadeia, disciplina e autoridade; para si, garantismo repentino, denúncia de abuso e delicadeza humanitária. Fascistas de aluguel com alma de síndico valentão.


A prisão pelo ICE não o coloca automaticamente num avião para o Brasil. A extradição ainda passa pelo rito americano. Mas o quadro político já está pronto: o sujeito que ajudou a intoxicar a República com fantasias de força termina reduzido à condição banal de custodiado, o épico de araque virou papelório internacional.


Há algo de especialmente cômico no patriotismo dessa turma. Passaram anos berrando soberania, bandeira, Brasil acima de tudo, continência para pneu e pose viril. Quando a coisa aperta, surge o roteiro de sempre: fuga, choradeira e terceirização do destino. A pátria era figurino; o nacionalismo, cosplay; a coragem tinha procedência duvidosa.


A defesa ainda vai chiar, atrasar e posar para a claque. Faz parte. Mas o dano simbólico já está feito: um ex-Abin ligado ao coração da trama golpista termina preso em solo americano. Para um movimento que se vendia como reserva moral da nação, o retrato é devastador.

      Julio Benchimol Pinto

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