No Bolsonarismo Não Basta Lamber a Bota Tem que Lamber a Bota Homologada Pela Familia
Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira resolveram fazer em praça pública o que o bolsonarismo mais sabe fazer quando falta inimigo externo: brigar entre si como se disputassem a herança de um trono de compensado.
A cena é sublime. Nikolas tenta defender Jair Bolsonaro numa discussão sobre o Pix, usa vídeo de perfil da própria direita e, por isso mesmo, leva coice de Eduardo. Sim, o sujeito apanha por bajular errado. No bolsonarismo, não basta lamber a bota; tem de lamber a bota homologada pela família.
Eduardo, espumando ressentimento dinástico, acusa Nikolas de deboche, desrespeito, manipulação de algoritmo e até de não ter se engajado como deveria na campanha do irmão. A coisa já não soa como política; soa como reunião de condomínio entre herdeiros brigando pelo controle remoto do patriarca.
E Nikolas? Nikolas faz o que sabe: posa de menino prodígio insolente, ri com desdém e deixa no ar a pior ofensa possível nesse tipo de seita familiar - a suspeita de que talvez ele já não precise pedir bênção para existir.
É aí que o teatro fica bonito. Porque a briga não é sobre Pix, respeito ou princípios, mas sobre propriedade. Quem manda na direita bolsonarista? Quem distribui a senha da fidelidade? Quem decide quem é traidor, quem é puro, quem pode falar em nome do pai, do mito, do espólio, da seita e do açougue?
O bolsonarismo passou anos vendendo ao país a fantasia de uma direita coesa, moralizada e disciplinada. Entregou, no fim, o que sempre foi: um consórcio de vaidades armadas, egos hipertrofiados e filhos do mesmo caudilho brigando pela chave do cofre, pelo algoritmo e pelo direito de posar mais perto do altar.
No fundo, é até comovente. A extrema direita brasileira, que vive chamando os outros de histéricos, desabou numa DR pública por causa de risadinha, curtida, perfil de internet e ciúme de protagonismo.
A república treme, o grupo da família ferve e o fascismo de zap revela, mais uma vez, sua forma mais pura: uma mistura de coronelismo doméstico, infantilidade digital e disputa de herança com vocação para pastelão.
Julio Benchimol Pinto



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