A Hungria é Pequena, Mas o Estrago Simbólico da Derrota de Orbán É Enorme
Orbán não era só primeiro-ministro de um país médio do leste europeu, mas também mascote internacional da democracia iliberal: o homem que ensinava como corroer imprensa, Judiciário, universidades e freios institucionais sem precisar rasgar a fantasia eleitoral. Por isso sua derrota importa muito além de Budapeste. Reuters a tratou como golpe simbólico e estratégico contra aliados internacionais de Orbán, inclusive Putin e o universo MAGA.
E não para por aí. Orbán vinha sendo paparicado como santo padroeiro da extrema direita europeia. Poucas semanas antes da eleição, apareceu em Budapeste cercado por Marine Le Pen, Geert Wilders, Matteo Salvini, Tom Van Grieken e outros chefes da direita radical reunidos no bloco Patriots for Europe.
É aí que entra o bolsonarismo: não como exceção, mas como filial tropical da mesma igreja autoritária, a mesma tara pelo líder forte, a mesma guerra contra imprensa e tribunais, a mesma fabricação de inimigos internos, a mesma conversão da política em culto paranoico. O bolsonarismo sempre olhou para Orbán com aquela cara de fã deslumbrado em camarim de cantor decadente. E não estava sozinho: trumpistas, lepenistas, wildersistas, salvinistas, bibistas e outros vendedores de ressentimento também fizeram fila para lhe prestar continência.
A derrota dele não liquida a extrema direita mundial. Pena, eu sei. Mas quebra uma coisa valiosa: a aura de inevitabilidade. Mostra que até um governante que parecia ter montado uma máquina quase blindada de poder, propaganda e deformação institucional pode cair.
A Hungria talvez seja pequena no mapa, mas o recado dessa queda chegou grande a Moscou, a Washington, a Paris, a Roma, Jerusalém e também a Brasília. Apanhou Orbán e apanharam junto todos os que o vendiam como modelo de futuro.
Julio Benchimol Pinto



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