Gente Armada Querendo Matar e Gente Poderosa Querendo Transformar Cada Tiro em Santinho Eleitoral

 Trump quase foi vítima de um ataque real. Isso é grave. Violência política é inadmissível.

Mas Trump, naturalmente, conseguiu transformar até uma evacuação do Serviço Secreto em episódio de autopromoção com trilha de super-herói... cansado.


Ao 60 Minutes, disse que “não sentiu medo”. Claro.,Trump nunca sente medo; só sente perseguição, fraude eleitoral, injustiça cósmica, amor próprio em estado febril e uma necessidade patológica de aparecer como mártir mesmo quando sai ileso.


Segundo ele, a retirada demorou porque ficou “curioso” para ver o que estava acontecendo. Intrigante: o homem cercado pelo aparato de segurança mais caro do planeta, diante de um ataque armado, teria resolvido brincar de fiscal de tumulto.


Depois, quando Norah O’Donnell leu trechos do manifesto do agressor, Trump reagiu como sempre: não respondeu ao fato; atacou a jornalista, chamando-a de vergonha. Porque, no teatro trumpista, a imprensa só presta quando segura o espelho no ângulo em que ele parece Churchill; quando pergunta, vira inimiga da pátria.


O suspeito parece ser um sujeito perturbado. O ataque deve ser investigado com seriedade; a falha de segurança também. Como alguém chegou armado tão perto daquele evento é pergunta para adulto, não para torcida.


Mas Trump já escolheu o figurino: sobrevivente destemido, vítima universal, caubói de teleprompter, mártir com maquiagem intacta.


A democracia americana enfrenta um problema gravíssimo: gente armada querendo matar e gente poderosa querendo transformar cada tiro em santinho eleitoral.


Trump saiu ileso; a verdade, coitada, continua no pronto-socorro.

    Julio Benchimol Pinto

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