Maduro Caiu, Mas a Democracia Venezuelana Ainda Não Entrou Pela Porta da Frente

 Maduro caiu, mas a democracia venezuelana ainda não entrou pela porta da frente: ficou no corredor, enquanto os donos da casa trocam os móveis.

Menos de quatro meses depois da prisão de Nicolás Maduro por forças dos EUA, Delcy Rodríguez, antiga peça central do chavismo, passou a desmontar a rede do antigo chefe: demitiu ministros, trocou comandos militares, nomeou diplomatas, afastou figuras do petróleo e abriu canais com Washington.


Parece transição, mas olhando melhor, percebe-se que foi apenas troca de gerente no mesmo prédio autoritário.


Delcy não rompeu com o aparelho chavista, mas está apenas mudando o dono da máquina: sai o madurismo familiar, militarizado e petroleiro; entra um chavismo pós-Maduro, mais pragmático, mais aceitável para Washington e ainda muito pouco parecido com democracia.


O velho discurso anti-imperialista foi para o depósito. No lugar, surgem petróleo, mineração, FMI, Banco Mundial, Chevron, Shell e a velha palavra mágica: estabilidade. Em certas bocas, estabilidade significa apenas isto: o povo espera, os negócios andam.


A oposição venezuelana tem razão em desconfiar. Uma coisa é retirar Maduro; outra é entregar a transição a alguém formada no coração do regime. Delcy conhece a máquina por dentro porque ajudou a operá-la. Agora posa de bombeira depois de anos na sala das caldeiras.


Há libertação de presos políticos? Há. Há relaxamento de sanções? Há. Há rearranjo real de poder? Também. Mas autoritarismo também sabe trocar de roupa. Às vezes até aprende inglês diplomático.


Maduro saiu e o madurismo está sendo podado, mas a árvore autoritária continua de pé, agora regada com pragmatismo, petróleo e bênçãos discretas de Washington.


Quando uma ditadura muda de gerente, convém não chamar isso depressa demais de liberdade. Às vezes é só o mesmo cárcere com pintura nova.

  Julio Benchimol Pinto

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