Familia Tradicional Brasileira, afinal também briga Pela Herança
O bolsonarismo entrou em 2026 como quem abre inventário antes de o defunto esfriar.
Flávio tenta posar de herdeiro moderado. Eduardo vigia a pureza da seita. Michelle protege o próprio capital político. Nikolas não quer virar office-boy algorítmico da família. Jair Renan aparece no enredo e leva de Nikolas a delicada avaliação zoológica de “toupeira cega”. Allan dos Santos, lá de fora, segue dando sermão de bravura patriótica com o conforto térmico de quem não está exatamente na fila da Papuda. E até maquiador virou analista de sucessão dinástica.
É lindo. Durante anos, essa gente ensinou o Brasil a transformar política em culto, divergência em traição, adversário em inimigo, prudência em covardia e mentira em método. Criaram uma máquina de moer reputações, inflar ressentimentos e linchar qualquer um que saísse meio centímetro da liturgia.
Agora descobriram uma coisa fascinante: máquina de moer não reconhece CPF de aliado.
A pré-campanha de Flávio nasceu prometendo unidade, ordem e continuidade. Entregou briga familiar, vaidade ferida, influenciador indócil, filho ressentido, ex-primeira-dama com projeto próprio, guru foragido, maquiador insurgente e candidato tentando apagar incêndio com desodorante de campanha.
O clã queria uma sucessão imperial. Recebeu uma reunião de condomínio depois da terceira dose de Campari.
O mais divertido é ver todos falando em “direita unida” enquanto disputam quem fica com a chave do cofre simbólico de Bolsonaro: o voto evangélico, o zap patriótico, o berrante digital, a nostalgia autoritária, o ressentimento de boutique e a pose de mártir perseguido.
Só que ninguém quer ser coadjuvante - nem Michelle, nem Eduardo, nem Nikolas, nem os satélites, muito menos os pequenos inquisidores de internet, que descobriram que podem berrar sem pedir bênção ao sobrenome.
O bolsonarismo sempre foi menos uma doutrina do que uma rinha com bandeira nacional ao fundo. Agora a rinha ficou endógena.
E a cena é esta: todos juram fidelidade ao mito, mas cada um já está medindo a cortina, escolhendo o trono e escondendo o punhal na Bíblia.
Família tradicional brasileira, afinal, também briga pela herança.
Julio Benchimol Pinto



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