O Messias Silencioso
Há um novo mistério no bolsonarismo: o Messias não fala, mas fala.
Fala por Michelle, quando convém ungir a dor com filtro de Instagram.
Fala por Flávio, quando o herdeiro tenta vestir a túnica do pai e descobre que ela vem com manchas, furos e nota fiscal desaparecida.
Fala por Carluxo, o apóstolo do bunker, sempre pronto a traduzir o silêncio divino em indireta, surto e criptograma de WhatsApp.
Fala até por Amâncio, o Jair Renan, essa epístola viva escrita em letra de forma por um estagiário do caos.
O curioso é que, quanto mais dizem que ele ainda dá as cartas, mais parece que o baralho foi derrubado no chão da seita.
Um profeta acusa, outro desmente, um terceiro sibila, o quarto posta e o Messias, lá no fundo, em silêncio solene, assiste ao culto virar reunião de condomínio com exorcismo.
O bolsonarismo virou isto: uma religião política em que ninguém sabe mais onde está o altar, quem recolhe o dízimo, quem fala em nome do patriarca e quem só pegou o microfone porque estava mais perto da tomada.
O silêncio do Messias já não parece estratégia; parece defeito no oráculo. E, quando uma seita começa a disputar quem interpreta melhor o silêncio do líder, geralmente não está nascendo uma profecia; está começando o inventário.



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