O Golpismo Aprendeu A Escrever Cartas

 


Os Bolsonaro não estão apenas testando os limites de Moraes; estão testando qual narrativa rende mais.

Jair burla a proibição de se comunicar por terceiros, Flávio transforma visita familiar em live eleitoral, Moraes reage - e, no mesmo instante, o infrator desaparece da cena; sobra o “ditador de toga interferindo na eleição”.


É uma armadilha perfeita: se Moraes não pune, a ordem judicial vira papel higiênico; se pune, o clã ganha um mártir, um palanque e um novo capítulo da perseguição imaginária.


Flávio nem disfarçou: contou os 90 dias, percebeu que atravessavam o primeiro turno e anunciou a “interferência eleitoral”. O objetivo discursivo é cristalino: apagar o descumprimento e transformar a consequência em causa.


E então entra Trump, o grande megafone internacional da família. A provocação brasileira é traduzida em Washington como “censura”, weaponization e eleição manipulada. O clã fornece o melodrama; Trump entra com tarifas, sanções e a delicadeza diplomática de um rinoceronte numa cristaleira.


Há prova de um novo golpe operacional? Ainda não, mas a gramática do golpe segue intacta: deslegitimar o árbitro, vitimizar o infrator e preparar antecipadamente a explicação para uma derrota.


Talvez eles não estejam planejando perder; estão planejando o significado da derrota: se vencerem, derrotaram o sistema; se perderem, o sistema roubou.


Em 2022, atacaram as urnas; em 2026, atacam quem apita o jogo. Mudou o alvo, mas o método continua usando o mesmo sobrenome.

Julio Benchimol Pinto

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