Tutta Brava Gente, Como Diriam Os Italianos
A cena é perfeita demais para ser desperdiçada.
Depois de meses de trombadas, Flávio Bolsonaro apareceu num culto de Silas Malafaia, no Rio, para selar a reaproximação. Malafaia, que já havia ensaiado apoio a uma chapa Tarcísio-Michelle, agora estendeu novamente as mãos sobre o filho escolhido por Bolsonaro para a sucessão.
Flávio disse que foi prestigiar “um amigo” e receber orações pelo Brasil. Claro. No Brasil contemporâneo, algumas reuniões políticas já nem precisam mais disfarçar tanto. Basta trocar a mesa pelo altar, o acordo pela unção e o palanque pelo púlpito.
Antes do culto, houve café da manhã com Cláudio Castro, Marcelo Crivella, Sóstenes Cavalcante, Douglas Ruas e outros expoentes desse cristianismo eleitoral de alta combustão. Tutta brava gente, como diriam os italianos.
A política ali não entrou escondida na igreja. Entrou pela porta da frente, sentou na primeira fila, tomou café, recebeu oração e saiu com foto.
Malafaia não estava apenas orando; estava recalibrando o tabuleiro. Flávio não estava apenas sendo abençoado; estava buscando certificado evangélico de viabilidade eleitoral.
A extrema direita brasileira descobriu uma forma curiosa de secularismo: quando o Estado entra na igreja, chama-se fé; quando a igreja entra no Estado, chama-se projeto de poder.
E assim seguimos: um país em que a sucessão presidencial pode começar no altar, passar pelo café da manhã e terminar como sempre termina, com Deus no slogan e o poder no prato.
Julio Benchimol Pinto



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