A República Do Mandato Terceirizado

 


Valdemar Costa Neto e Eduardo Cunha não deixaram o Congresso. Segundo a Polícia Federal, apenas terceirizaram o mandato.

Sem cadeira, sem voto e sem procuração do eleitor, os dois teriam comandado quase R$ 125 milhões em emendas parlamentares. Valdemar: 21 emendas e R$ 119,2 milhões. Cunha: 29 emendas e R$ 6,15 milhões. O povo elegia os deputados; as velhas raposas escolhiam o destino do dinheiro.  


A operadora seria a mesma: Mariângela Fialek, a Tuca. No caso de Cunha, a PF afirma que ela agia com “pleno aval” da Presidência da Câmara e descreve o ambiente com uma precisão que aposentou a sátira: “altíssimo grau de promiscuidade”.  


Dos valores atribuídos a Valdemar, R$ 97 milhões foram liberados na semana anterior ao limite eleitoral de 2024, irrigando municípios estratégicos para o PL. Uma extraordinária coincidência: o dinheiro público sempre encontra o calendário partidário.  


Hugo Motta chama a investigação de tentativa de “criminalizar a atividade política”. Calma, presidente. Influenciar uma bancada é política, mas escolher valores e municípios por trás da cortina, ocultar o verdadeiro autor e usar deputados como assinaturas de aluguel, caso se confirme, é outra modalidade de entretenimento.  


Valdemar e Cunha negam irregularidades. A investigação prossegue.


Mas a fotografia institucional já é obscena: o eleitor escolhe o boneco, o cacique movimenta a boca, Tuca puxa os cordões e o Brasil paga o espetáculo.

     Julio Benchimol Pinto

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