O Homem Que Zombou Do Poste Acabou Escrevendo O Manual De Montagem do Próprio

 


Em 2018, Bolsonaro chamou Haddad de “fantoche de preso”, “poste” e candidato sem voz própria. Oito anos depois, da prisão domiciliar, escreve uma carta para declarar Flávio “meu pré-candidato” e “meu porta-voz”.

A História não apenas rima; às vezes ela gargalha.


O mecanismo é o mesmo: o líder impedido tenta transferir sua voz, seu carisma e seu eleitorado ao escolhido. O bolsonarismo acaba reproduzindo, com caligrafia tremida, aquilo que passou anos tratando como fraude política.


Mas não há equivalência perfeita - e é aí que a ironia fica ainda melhor.


Lula indicou Haddad, seu vice de chapa, ex-ministro, ex-prefeito, quadro partidário e coordenador de um programa de governo. Pode-se criticar o personalismo? Deve-se, mas havia partido, trajetória e projeto.


Bolsonaro não apresenta programa, partido nem sucessão política; apresenta um filho. Não transfere liderança; transmite propriedade.


A carta não é uma indicação partidária; é um inventário: o pai nomeia, o herdeiro recebe, a militância reconhece firma e o Brasil entra como patrimônio da família.


Lula tentou fabricar um representante; Bolsonaro lavrou uma escritura de herança.


O homem que dizia que “quem conversa com poste é bêbado” terminou seus dias políticos construindo o próprio poste - com DNA, sobrenome e procuração.

  Julio Benchimol Pinto

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