O Alvará Moral da Seita

 

Lucas Bove não caiu de paraquedas no bolsonarismo; é deputado estadual do PL-SP, bolsonarista assumido, produto legítimo dessa direita que mistura altar, farda, agronegócio e guerra santa contra o comunismo.


Na entrevista a Felipe Sestaro, no IronTalks, Bove tentava explicar por que apoiaria Flávio Bolsonaro e entregou, sem querer, a ata notarial da hipocrisia nacional: “É corrupto, mas é cristão.”


Pronto, acabou a fantasia. Durante anos, venderam ao país uma cruzada moral contra a corrupção. Teve camisa amarela, panela, pato inflável, sermão de púlpito, live patriótica, PowerPoint e chilique cívico na Paulista. Mas bastou o problema aparecer dentro de casa para a régua moral virar elástico de cueca.


No adversário, corrupção é prova de degeneração nacional; no aliado, passa pela lavanderia da identidade, recebe carimbo de “valores cristãos” e volta limpinha para o cercadinho. “Cristão”, nesse uso, não é conduta; é senha, pulseira de camarote, crachá de facção.


A pergunta republicana - respeita a lei, a verdade, o dinheiro público, a coisa pública? - foi trocada por um teste tribal: é dos nossos? Se for, absolve antes de apurar; se não for, condena antes de ouvir.


O ethos do bolsonarismo cabe inteiro nessa frase: eles não combatem a corrupção, administram a indignação; vendiam virtude no atacado, entregaram absolvição no varejo.


Bove não cometeu uma gafe; ele abriu a boca e deixou cair o recibo.


O velho “rouba, mas faz” ganhou atualização gospel-bolsonarista: rouba, mas ora; enrola a República, mas fala em família; carrega suspeita nas costas, mas grita contra o STF; tropeça na ética, mas cai ajoelhado no marketing religioso.


É a velha política brasileira fantasiada de cruzada moral - com Bíblia cenográfica, patriotismo de liquidação e cinismo em horário nobre.


Julio Benchimol Pinto

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