O Inventário do Messias
O bolsonarismo virou uma monarquia sem regra de sucessão.
Flávio herdou o sobrenome, o mandato e o passivo do clã. Michelle herdou o culto, o púlpito, o eleitorado evangélico e a linguagem emocional que os filhos de Bolsonaro nunca souberam falar sem parecer reunião de condomínio armado.
A crise não é fofoca de madrasta e enteado; é disputa de poder: Flávio quer Michelle como cabo eleitoral; Michelle quer ser tratada como liderança; e, nesse jogo, ela talvez não baste para fazê-lo ganhar, mas pode perfeitamente ajudá-lo a perder.
Michelle já falou para as mulheres, já falou para os evangélicos e já encenou a mulher humilhada, traída, desrespeitada. Num país em que política também se decide por ressentimento moral, isso é dinamite com versículo bíblico.
A ironia é deliciosa: Michelle chamou Alexandre de Moraes de “irmão em Cristo”, mas para Flávio reservou o Antigo Testamento.
E Jair? Jair está dormindo com o inimigo, segundo a própria lógica paranoica da família que transformou a política brasileira numa ceia de domingo com facas sobre a mesa.
O bolsonarismo vendeu “família exemplar” como projeto de país e agora oferece ao eleitor uma família em guerra pelo inventário do mito.
Flávio quer se apresentar como homem capaz de unir o Brasil, mas não consegue pacificar nem a madrasta.
Michelle, por sua vez, é mais perigosa porque parece mais suave: troca o berro de quartel pelo sussurro de culto e a truculência dos filhos pela estética da fé. A embalagem mudou, mas o projeto continua sendo a captura religiosa da política.
No fim, a direita descobriu tarde demais que, no bolsonarismo, o sangue dá sobrenome, mas quem move multidão é o símbolo. E Michelle, hoje, é o símbolo que Flávio não controla.
A família que queria governar o Brasil em nome de Deus agora briga pela herança do Messias. Falta só o pastor homologar a partilha.
Julio Benchimol Pinto



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