A Teocracia Não Chega de Turbante E Decreto: Chega de Calçada
Em Bnei Brak, rabinos decidiram que homens devem andar de um lado da rua e mulheres, do outro. A prefeitura chamou isso de “controle de multidão”. O patriarcado, como se sabe, adora uma prancheta de logística.
O episódio seria apenas mais uma excentricidade ultraortodoxa se não fizesse parte de um movimento maior: segregação nas universidades, mais poder para o Rabinato, privilégios aos estudantes de yeshivá, expansão da coerção religiosa e ataques sistemáticos ao Supremo - justamente a instituição que ainda consegue dizer aos santos homens que a rua também pertence às mulheres.
Israel continua sendo uma democracia eleitoral, com juízes, imprensa, universidades e sociedade civil resistindo. Mas a deriva teocratizante existe. Avança aos poucos, por leis, verbas, acordos de coalizão e pequenos fatos consumados. Uma calçada hoje, um campus amanhã, um direito civil na semana seguinte.
A maioria dos israelenses não acordou sonhando com um Estado governado pela Halachá. O motor está numa minoria religiosa disciplinada, eleitoralmente organizada e indispensável à sobrevivência de Netanyahu. Os rabinos entregam votos; Netanyahu entrega orçamento, legislação e pedaços do Estado - é a corretagem imobiliária da alma nacional.
Teocracias modernas raramente começam queimando constituições. Primeiro decidem quem anda por qual calçada. Depois, quem pode casar, estudar, servir, rezar e até ser reconhecido como judeu.
Quando se percebe, Deus já foi nomeado síndico do Estado e a coalizão ficou com a administradora.
Julio Benchimol Pinto



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