Nicarágua Fecha As Urnas. Washington Abre O Sermão
Daniel Ortega acaba de anunciar que a Nicarágua não terá mais eleições. Depois de prender adversários, expulsar dissidentes, cassar nacionalidades, esmagar a imprensa e promover a própria mulher a copresidente, o velho revolucionário finalmente dispensou a fantasia democrática.
A revolução que derrubou a dinastia Somoza terminou na dinastia Ortega-Murillo. Trocaram os sobrenomes, conservaram o trono.
Marco Rubio condenou a decisão e pediu o isolamento internacional da Nicarágua. Está certo. O problema aparece quando Washington sobe ao púlpito carregando o barril de petróleo venezuelano.
Em 3 de janeiro, forças americanas atacaram a Venezuela, capturaram Nicolás Maduro e o levaram para Nova York. Trump anunciou que os Estados Unidos conduziriam a transição. Delcy Rodríguez, braço direito e vice de Maduro, permaneceu no comando; Washington passou a supervisionar receitas do petróleo e a negociar diretamente o destino econômico do país.
A democracia prometida aos venezuelanos chegou de helicóptero, algemas e contador de barris.
Maduro era um ditador. Ortega é um ditador. A captura de um tirano por uma potência estrangeira não transforma intervenção militar em soberania popular. Condenar a abolição das eleições na Nicarágua enquanto se administra a Venezuela sem devolver imediatamente o poder aos eleitores exige um talento olímpico para a hipocrisia.
Cada campo político oferece indulgência aos seus monstros. Parte da esquerda chama repressão de revolução, anti-imperialismo ou soberania. Parte da direita chama autoritarismo de ordem, segurança ou salvação nacional. O preso político continua preso; a legenda do carcereiro pouco altera o tamanho da cela.
China, Rússia, Irã, Cuba, Coreia do Norte, Nicarágua, monarquias absolutas do Golfo: toda ditadura possui uma narrativa heroica, um inimigo providencial e uma multidão de intelectuais terceirizando a própria consciência.
Ditadura boa é sempre aquela que prende o adversário dos outros. Até o dia em que a cela muda de endereço.
Júlio Benchimol Pinto



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