Quando o governo brasileiro fala em “preocupação” com o Irã, mas termina dizendo que cabe “aos iranianos decidir soberanamente seu futuro”, ele acha que está sendo prudente. Não está. Está sendo seletivo.
Há meses, ruas tomadas, inflação em 42%, moeda derretida, repressão letal, centenas de mortos, tribunais de fachada e pena de morte para manifestante. Isso não é “processo interno complexo”. É Estado matando gente para não cair. Chamar isso de soberania é trocar o dicionário pelo álibi.
A pergunta incômoda - e correta - é outra: se o condenado à morte fosse palestino e o carrasco fosse Israel, a nota seria assim tão macia? Ou viria carregada de adjetivos, urgência moral e condenação inequívoca? O que corrói a credibilidade não é criticar, é escolher quando criticar.
Dá para condenar Trump, tarifas, sanções e ameaças militares sem dificuldade. Dá para criticar EUA, Israel e suas hipocrisias históricas sem passar pano. O que não dá é usar geopolítica como cortina para forca. Nenhuma inflação explica enforcamento. Nenhuma sanção justifica tribunal relâmpago. Nenhuma soberania autoriza matar dissidente.
Quando tudo vira cálculo comercial - petróleo, gás, agronegócio, tarifas -, os mortos viram rodapé. E o Itamaraty, que já soube falar grosso em nome de direitos humanos, passa a cochichar para não atrapalhar negócios.
Não é neutralidade; é conveniência, em política externa, também mata.
Crédito: Escritor e Advogado Julio Benchimol Pinto

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