A direita brasileira virou capitania hereditária. Não se discute projeto, programa, ideias. Discute-se sucessão. Quem herda o sobrenome, quem recebe a bênção, quem ganha o anel e o selo da família real.
Tarcísio de Freitas resolveu ajoelhar no altar e anunciou: meu candidato é Flávio Bolsonaro. Não porque seja o melhor, o mais preparado ou o mais votável. Mas porque é o filho certo. Política como inventário: passa-se o bastão, registra-se em cartório e vida que segue.
Enquanto isso, Flávio briga com Michelle Bolsonaro nas redes, como quem disputa quem fica com a chave do cofre e o controle do espólio eleitoral. O Brasil vira detalhe. O que importa é quem manda no sobrenome.
No meio da confusão, aparece Ratinho Jr. oferecendo-se como alternativa “civilizada”. Tradução livre: se os herdeiros não se entendem, talvez chamem o síndico. Mas até aí, o script segue o mesmo: espera-se a decisão da família, não do eleitor.
A pergunta incômoda é simples: desde quando a direita virou monarquia? Quem outorgou aos Bolsonaro o direito hereditário de ungir, vetar e legitimar candidatos? Em que artigo da Constituição está escrito que a faixa presidencial passa de pai para filho, com aval de governadores ajoelhados?
Se a direita quer ser levada a sério, talvez seja hora de fazer política, não genealogia. Porque eleição não é testamento. E o Brasil não é herança.
Crédito: Escritor e Advogado Julio Benchimol Pinto

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