Venezuela: A Falha da Terra E A Falha do Estado
1.450 mortos confirmados, cerca de 50 mil desaparecidos ou sem contato, mais de 6 milhões afetados; 774 edifícios atingidos, 189 no chão; e as 72 horas - a janela cruel da esperança - praticamente se fecharam.
A primeira pancada veio da falha geológica; as demais vieram de anos de falha estatal.
Enquanto 27 países mandam socorristas, cães e equipamentos, famílias venezuelanas ainda cavam com pás, picaretas e as próprias mãos. Técnicos brasileiros procuram sinais de celulares sob concreto, tentando ouvir a última possibilidade de vida onde o Estado chegou tarde, mal ou nunca chegou.
A Venezuela virou tribunal de slogans: para uns, tudo é culpa dos EUA; para outros, pobre só merece compaixão quando vota certo. Entre a catequese antiamericana e o sadismo bolsonarista, há gente morta na calçada.
Sim, sanções sufocam, impérios cobram juros de sangue e Trump não é Madre Teresa com topete. Mas hospital sem estrutura, prédio sem manutenção, socorro sem coordenação, imprensa vigiada, economia saqueada e povo abandonado não caem do céu; são obras humanas, assinadas, carimbadas, (des)governadas.
A terra tremeu por segundos; a Venezuela desmorona há anos. Agora não precisa de torcida; precisa de máquinas, médicos, água, comida, remédio, abrigo, imprensa livre, verdade pública e vergonha na cara.
Porque quando um povo cava os próprios mortos com as mãos, a última coisa que ele merece é virar panfleto de gente que ama mais sua ideologia do que seres humanos.
Julio Benchimol Pinto



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