A Indulgência Dos Canalhas

 

A nova direita religiosa inventou uma teologia muito prática: o pecado do adversário é prova de decadência moral, o pecado do aliado é “fraqueza humana”; a corrupção do adversário revela o mal, a corrupção do aliado é perseguição; a mentira do adversário destrói a civilização, a mentira do aliado é “guerra espiritual”; e, se o canalha for útil, Deus sempre aparece para assinar o habeas corpus.


É assim que funciona a moral seletiva dessa turma: Bíblia para bater nos outros; borracha para apagar os próprios pecados.


Jackson Lahmeyer, o pastor trumpista derrubado por mensagens inadequadas com uma ex-funcionária, é só mais um capítulo da novela. O enredo é velho: pregam família, vendem pureza, demonizam minorias, fiscalizam corpos alheios, transformam púlpito em palanque - e, quando o escândalo bate à porta, descobrem subitamente a beleza do perdão.


Perdão, claro, para eles. Para mulheres, gays, imigrantes, artistas, professores, jornalistas e qualquer um fora da tribo, vale o fogo eterno - sem recurso, sem contraditório, sem segunda instância espiritual.


Trump entendeu isso antes de todos: ele nunca precisou ser exemplo moral; bastou ser o jagunço simbólico da guerra cultural. Para a direita religiosa, o santo pode faltar; o inimigo, jamais.


No Brasil, a liturgia é parecida: Deus acima de todos, rachadinha abaixo do púlpito, pastor no palanque, fiel no curral, família no discurso e dinheiro público circulando como se fosse coleta dominical.


A religião, quando vira instrumento de poder, perde a alma e ganha departamento de marketing.


O problema nunca foi o religioso participar da política, mas sim o político usar Deus como biombo, igreja como máquina eleitorado e moralidade como porrete.


No fim, a extrema direita religiosa não quer salvar a família; quer patentear a virtude, terceirizar a culpa e privatizar o perdão.


E nisso, convenhamos, eles são muito eficientes. Milagre mesmo seria sentirem vergonha.

  Julio Benchimol Pinto

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