Carta ao Independente
Carta ao independente
Você não precisa amar Lula, não precisa vestir vermelho, não precisa fingir que o PT é puro, não precisa engolir fala ruim, política externa indigesta, Centrão, Banco Master, aliado enrolado ou banqueiro fazendo turismo no subsolo da República. Eu também não preciso.
Votar em Lula, se o segundo turno for contra o espólio Bolsonaro, não é assinar atestado de inocência coletiva, mas escolher o terreno da disputa.
Corrupção se investiga, aliado suspeito se cobra, banco podre se devassa, dinheiro se rastreia, culpado se pune - inclusive se estiver perto de Lula. Aliás, principalmente se estiver perto de Lula.
Mas há uma diferença que o bolsonarismo tenta apagar com megafone, meme e cara de vítima: enquanto a corrupção corrói a República, o golpismo tenta demolir a República inteira.
Uma coisa é governo criticável; outra é um campo político que atacou urnas, acampou em quartel, tratou derrota como fraude, produziu 8 de janeiro e agora quer voltar com outro nome no crachá.
Você pode querer terceira via. Eu também queria um Brasil menos refém de escolhas dramáticas.
No primeiro turno, procure a melhor alternativa democrática. Mas, no segundo, se a escolha for entre Lula e o herdeiro do bolsonarismo, não estaremos escolhendo pureza; estaremos escolhendo limite.
Você não precisa gostar de Lula, mas precisa gostar mais da democracia do que da sua irritação com Lula.
Voto não é casamento, não é culto, não é batismo, não é absolvição; às vezes, voto é extintor.
E eu posso reclamar da cor do caminhão dos bombeiros; só não vou entregar a cidade ao incendiário.
Julio Benchimol Pinto



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