Morre Autora de Persépolis aos 56 anos

 Marjane Satrapi morreu aos 56 anos. Autora de Persépolis, ela transformou a própria infância no Irã em uma das obras mais devastadoras contra a estupidez teocrática do nosso tempo.

E talvez seja por isso que sua morte incomode tanto. Satrapi atrapalha a fantasia confortável de certa esquerda ocidental que, sentada no sofá, com Wi-Fi, cappuccino e vocabulário revolucionário de boutique, decidiu chamar o regime iraniano de “resistência”.


Persépolis é justamente o antídoto contra essa impostura.


Ali não há aiatolá poético, nem mulá anti-imperialista, nem polícia moral com verniz geopolítico. Há criança aprendendo que pensar é perigoso. Há mulher vigiada pelo cabelo, pelo corpo, pela roupa, pela voz. Há família atravessada por prisão, exílio, medo e silêncio. Há uma civilização imensa sequestrada por homens pequenos, vestidos de autoridade sagrada.


Satrapi não escreveu propaganda ocidental contra o Irã; escreveu amor ao Irã contra seus carcereiros.


Essa distinção, aparentemente simples, é demais para quem confunde povo com regime, crítica à teocracia com colonialismo, e solidariedade aos oprimidos com torcida por qualquer tirano que diga “morte à América” com a entonação correta.


A esquerda que romantiza os mulás deveria ler Persépolis antes de postar mais uma bobagem sobre “resistência”. Mas ler dá trabalho. Melhor compartilhar um card, repetir um slogan e fingir que mulher iraniana arrancando o véu está atrapalhando a revolução.


Marjane Satrapi desenhou em preto e branco porque certas coisas dispensam nuance falsa.


Entre uma menina iraniana querendo respirar e um regime que transforma Deus em delegacia, ela escolheu a menina.


Eu também.

Julio Benchimol Pinto

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