O Homem Mais Poderoso do Mundo Não Governa; Ele Emite Sinais

 

Às vezes por decreto; às vezes por post; às vezes, segundo a internet, por meios mais atmosféricos.


Há vídeos circulando em que Trump aparece em reuniões, audiências e coletivas enquanto assessores parecem atravessar aquele constrangimento universal: o olhar perdido, o sorriso paralisado, a alma abandonando o corpo. A checagem séria não confirmou as flatulências, mas aí está a tragédia estética: com Trump, até o boato fisiológico parece plausível.


Calígula quis fazer do cavalo um senador; Trump olhou para o Congresso e pensou: “para quê o cavalo?”


Nero virou símbolo do sujeito que toca lira enquanto Roma arde; Trump dispensa a lira: ele acende o incêndio, culpa os bombeiros, vende bonés vermelhos na saída e chama a fumaça de “a melhor fumaça da história”.


Idi Amin colecionava títulos delirantes; Trump coleciona superlativos como quem infla balão em velório: tudo é “tremendo”, “histórico”, “nunca visto”, “o maior”, “o mais perfeito”, “ninguém nunca peidou - perdão, governou - como eu”.


Kim Jong-il teria nascido sob arco-íris e estrela milagrosa; Trump nasceu sob holofote, spray bronzeador e uma equipe de comunicação condenada a explicar o inexplicável em tempo real.


A questão não é saber se houve ou não a famosa emissão presidencial. Isso fica para peritos, microfones e pobres testemunhas oculares.


A questão é que o trumpismo inteiro funciona como uma ideologia em estado gasoso: não argumenta, espalha; não convence, impregna; não governa, empesteia; não responde, vaza.


E, enquanto a internet examina vídeos como se fossem o Zapruder filmado num banheiro químico, o sujeito continua tratado por milhões como estadista, profeta, mártir e Messias de resort falido.


Este é o ponto sublime da civilização contemporânea: o homem com acesso ao arsenal nuclear dos Estados Unidos também é personagem recorrente de debates sobre odor, fralda, gases, cochilos, tubarões, bacon, vento e Hannibal Lecter.


Roma caiu com mármore, toga e delírio imperial; a América tenta cair de boné vermelho, microfone aberto e um ruído suspeito ao fundo. 


 Julio Benchimol Pinto

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