O Independente Não é Idiota
Há um erro mortal em parte do campo democrático: achar que o eleitor independente precisa ser convertido em devoto. Não precisa. Ele não quer vestir camiseta, não quer cantar jingle, não quer fingir que Lula nunca erra, não quer trocar uma seita verde-amarela por uma procissão vermelha com legenda. E está certo.
O eleitor independente quer uma coisa mais simples e mais rara no Brasil: ser tratado como adulto. Ele olha para Lula e vê defeitos. Eu também vejo. Vê alianças ruins, frases infelizes, fisiologismo, comunicação torta, política externa discutível, excesso de passado em certas respostas ao presente. Tudo isso deve ser criticado.
Mas o erro está em transformar essa crítica legítima em cegueira comparativa. Porque, do outro lado, não há apenas “uma opção conservadora”, mas sim um campo político que atacou urnas, alimentou delírios contra o sistema eleitoral, flertou com quartel, tratou instituições como inimigas e transformou derrota eleitoral em surto patriótico. Essa é a diferença que o independente precisa encarar.
Não se trata de perguntar: “Lula é perfeito? Claro que não é. Nem ele, nem governo algum, nem santo de quermesse depois da terceira promessa. A pergunta adulta é outra: entre Lula real e bolsonarismo real, quem preserva melhor as condições mínimas da democracia?
É aí que a falsa equivalência desaba. Críticas a Lula cabem dentro da democracia. O bolsonarismo, por sua vez, tentou colocar a democracia dentro de um camburão ideológico.
Por isso, meu voto em Lula não nasce de culto, mas sim de critério. Não é amor, não é amnésia, não é adesão automática; é hierarquia de riscos.
E, numa eleição em que uma das alternativas carrega no sobrenome o legado do ataque às urnas, ao Supremo e à própria ideia de limite institucional, fingir neutralidade não é independência; é deixar o extintor em casa porque não gosta da cor do caminhão dos bombeiros.
Julio Benchimol Pinto



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